Em 2019, ao planejar a sétima edição da Semana de Artes Visuais e a terceira edição do Seminário de Intervenções Pedagógicas do Estágio Supervisionado em Artes Visuais consideramos que estes eventos poderiam tornar-se ainda mais fortes e potentes se vinculados a uma nova proposta, criada com o desejo de mobilizar a presença de integrantes da comunidade acadêmica de diferentes instituições de ensino superior, bem como professoras e professores, produtoras e produtores culturais, artistas e pessoas interessadas nas Artes Visuais da comunidade em geral. Diante disso, propomos a realização do I Seminário de Artes Visuais da UEM. Juntos, esses eventos têm como objetivos: Promover debates sobre processos criativos e educativos afetos às Artes Visuais; Socializar pesquisas relacionadas com a criação e educação em Artes Visuais; e Mobilizar discussões e proposições que incentivem a produção e ações educativas com Artes Visuais na UEM.

O tema escolhido para orientar as discussões do I Seminário de Artes Visuais da UEM foi “Corpo a corpo: presenças plurais”. Este enunciado arrasta o corpo para o centro do debate acadêmico e incentiva os diálogos que serão propostos por nossas convidadas e nossos convidados. Além disso, notamos que ao longo deste ano o corpo e as presenças plurais que sua existência implica têm sido alvo de significativas disputas estéticas.

Aplicativos cada vez mais acessíveis alteram e editam cores, formas, linhas e volumes e incentivam os ajustes daquilo que não parece apropriado a um corpo real. O corpo editado, simulacro, exposto nas redes sociais, muitas vezes ambiciona uma espécie de atenção narcisista convertida em likes (apesar de estratégias como aquela adotada pelo Instagram que ocultou a ferramenta de contagem de likes, sob a alegação de intentar “diminuir o clima de competição entre os seguidores”).

Entendemos, contudo, que as forças que disputam pelo lugar e a forma do corpo não se expressam apenas nos domínios da estética. Elas também são reveladas em embates de caráter econômico, político, educacional, artístico e religioso, que reclamam por enunciados ideológicos que intentam conferir aos corpos predicativos específicos. Podemos mencionar inúmeros exemplos disto:

No terceiro dia do ano de 2019, o enunciado feito pela ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos de que iniciaríamos uma “Nova Era no Brasil” reforçou o viés ideológico que demarca os corpos de meninos e meninas a partir das cores azul e rosa, respectivamente.

Em fevereiro, o então Ministério da Educação enviou às escolas públicas brasileiras uma carta pedindo que executassem o hino nacional e que filmassem as crianças durante o ato. Neste caso, a rigidez, obediência e padronizações que os corpos infantis assumem durante a execução do hino podem ser indicativos daquilo que se espera do corpo enquanto dispositivo da cultura escolar.

Em abril, no Rio de Janeiro, militares do exército dispararam mais de 80 tiros contra um carro que levava cinco pessoas para um chá de bebê. Um homem foi morto¹. Não por acaso, os corpos alvos do fuzilamento eram negros. Mais recentemente, em setembro, outro tiro matou um corpo inocente e negro. Desta vez, o de uma criança² com oito anos, que foi atingida nas costas quando estava em um veículo com sua mãe.

Em agosto, dentre tantos outros corpos, o corpo da primeira-dama³ da França foi lançado ao centro dos debates, ainda que temporariamente, quando o atual presidente do Brasil fez um comentário, em uma rede social, zombando de sua aparência. Inclusive, enunciados sobre o corpo têm sido lançados pelo presidente de forma insistente neste e em outros anos quando, por exemplo, disse a um homem com ascendência oriental: “Tudo pequenininho aí?!”; relatou em uma visita feita a um quilombo que “o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas”; afirmou que uma mulher⁴ “feia” não merece ser estuprada; e prefere que seu filho “morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí”.

Em setembro, mais uma vez o corpo que questiona as regras foi alvo de controle quando o prefeito do Rio de Janeiro tentou censurar um livro ilustrado que exibia a representação de um beijo entre dois homens, considerando-o material inadequado para crianças e adolescentes. Poucos dias antes, o governador de São Paulo mandou recolher apostilas do oitavo ano do Ensino Fundamental público, por causa de três páginas que tratavam sobre o corpo para além de seus aspectos biológicos. O texto censurado, apresentava o conceito de sexo biológico, orientação sexual e identidade de gênero – conteúdos considerados como impróprios para jovens com idade entre 13 e 14 anos, segundo o governador. 

Esses exemplos, longe de findarem o assunto, apenas demonstram algumas das disputas que em 2019 tomaram o corpo como alvo e que tentaram, e ainda tentam, normatizá-lo, regularizá-lo e puni-lo. Para tanto, são respaldados por concepções estéticas, morais e religiosas que conferem privilégios a grupos que, cada vez mais, tornam-se menos sensíveis e empáticos às diferenças que constituem nossas presenças plurais.

Destacamos aquilo que sinaliza Guacira Lopes Louro (1999, p.11) no livro O Corpo Educado: “Os corpos são significados pela cultura e, continuamente, por ela alterados”. Em outro estudo, onde o corpo aparece novamente, intitulado Corpo Estranho (2016, p.16), Louro comenta sobre as tentativas de regularizar os corpos dissidentes. Afirma que “como não pode ser decidida e determinada num só golpe, a ordem precisará ser reiterada constantemente, com sutileza e com energia, de modo explícito ou dissimulado”. Os fatos até aqui narrados são exemplos da ordem reiterada constantemente, a qual a autora denuncia. Esta ordem é, por vezes, subvertida nas artes, área do conhecimento humano em que o corpo encontra meios para existir e se reinventar: é ferramenta... é tema... é suporte... é ativo... é político... é resistência... é vivo...

Eduardo Galeano, poeta uruguaio, escreveu: “A Igreja diz: o corpo é uma culpa. A Ciência diz: o corpo é uma máquina. A publicidade diz: o corpo é um negócio. E o corpo diz: eu sou uma festa”. Para celebrar essa festa que é o corpo, como propõe Galeano, na realização do I Seminário de Artes Visuais da UEM convidamos outros corpos para ser e estar presentes. “Corpo a corpo” é, portanto, um convite para a aproximação, para o contato e para a ocupação coletiva de corpos que, juntos, possam criar como “presenças plurais".

 

¹ Evaldo dos Santos Rosa, negro, músico, assassinado aos 51 anos.

² Ágatha Félix, menina, negra, assassinada aos 8 anos.

³ Brigitte Macron, mulher, branca, primeira-dama da França. Atualmente com 66 anos.

⁴ A agressão foi proferida em 2014, referindo-se à Maria do Rosário, mulher, branca, professora e política. Atualmente com 52 anos.


Referências:

LOURO, Guacira Lopes. Pedagogias da Sexualidade. In: LOURO, Guacira Lopes (org.). O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 1999, p.7-34. 

______. Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer. Belo Horizonte: Autêntica, 2016.

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